A adaptação ao novo sistema tributário exigirá planejamento e revisão de processos para identificar riscos e oportunidades
Por Eduardo Kossoski e Murilo Fernandes
A Reforma Tributária sobre o consumo inaugura uma nova lógica de tributação no Brasil e exigirá das empresas muito mais do que a adaptação a novas obrigações fiscais. Para o setor de tecnologia, cujos modelos de negócio são marcados por intensa utilização de ativos intangíveis, mão de obra especializada e constante inovação, compreender os impactos das novas regras será fundamental para preservar competitividade e identificar oportunidades.
Ao contrário do que muitos empresários imaginam, os efeitos da reforma tributária não serão uniformes. Empresas que atuam no mesmo segmento poderão experimentar impactos tributários bastante distintos, a depender da forma como estão estruturadas, da cadeia de fornecedores, do perfil de seus clientes e da composição de seus custos. Em outras palavras, não haverá uma resposta única para todas as empresas de tecnologia.
O novo sistema de tributação do consumo passa a atribuir especial importância ao aproveitamento de créditos de IBS e CBS. Nesse contexto, será essencial compreender de quem a empresa adquire bens e serviços, quais despesas efetivamente geram créditos e como esses créditos influenciarão sua carga tributária. Empresas intensivas em mão de obra, por exemplo, tendem a enfrentar desafios específicos, já que despesas com salários e pró-labore, em regra, não geram créditos, tornando indispensável uma avaliação cuidadosa da estrutura de custos.
A análise também deverá considerar para quem a empresa vende. Em operações entre empresas, o aproveitamento dos créditos poderá influenciar diretamente a formação dos preços e a competitividade. Já nas vendas destinadas ao consumidor final ou a adquirentes que não recuperam créditos, o impacto da tributação tende a refletir-se de maneira mais imediata no preço final dos produtos e serviços. Essa nova dinâmica exigirá atenção redobrada na definição das estratégias comerciais e na precificação.
Outro aspecto que merece atenção é a revisão das relações contratuais. Contratos de prestação de serviços, licenciamento de software e demais instrumentos comerciais precisarão de adequações para disciplinar alterações legislativas, critérios de recomposição de preços, responsabilidades relacionadas aos créditos tributários e regras aplicáveis durante o período de transição da reforma tributária. Empresas que anteciparem essa revisão estarão mais preparadas para reduzir riscos e evitar conflitos futuros.
A escolha do regime tributário também ganhará novos contornos. Empresas optantes pelo Simples Nacional, por exemplo, precisarão avaliar criteriosamente as alternativas previstas para o recolhimento do IBS e da CBS, enquanto sociedades submetidas ao Lucro Presumido ou ao Lucro Real deverão reexaminar os reflexos das novas regras sobre sua realidade operacional. Além disso, empresas que atuam com segurança da informação e segurança cibernética poderão se beneficiar de uma redução de 60% nas alíquotas de IBS e CBS para determinadas operações previstas na legislação, o que reforça a importância de se revisar o enquadramento das atividades efetivamente desenvolvidas, a classificação fiscal dos serviços prestados e a estrutura contratual adotada.
Os impactos da reforma tributária, contudo, não se limitam à carga suportada. A adaptação dos sistemas de faturamento, dos documentos fiscais eletrônicos e dos controles internos será indispensável para atender às novas exigências legais. Soma-se a isso a implementação do chamado split payment, mecanismo que altera significativamente a dinâmica do fluxo de caixa das empresas, ao direcionar parte dos valores pagos diretamente à administração tributária. Questões operacionais como essas demandarão investimentos em tecnologia, revisão de processos internos e integração entre as áreas fiscal, financeira e de tecnologia da informação.
Em um cenário de tantas mudanças, o planejamento tributário deixa de ser apenas um instrumento de economia fiscal para assumir papel estratégico na gestão das empresas. Mapear fornecedores, revisar contratos, avaliar o aproveitamento de créditos, analisar a estrutura de custos, reexaminar o regime tributário e preparar os sistemas internos são medidas que podem fazer diferença significativa na transição para o novo modelo.
Mais do que compreender as novas regras, as empresas de tecnologia precisarão entender como elas se aplicam à sua própria realidade. A reforma tributária cria desafios importantes, mas também oportunidades para negócios que se anteciparem às mudanças e estruturarem sua adaptação de forma planejada. Acreditamos que uma análise jurídica e tributária individualizada torna-se essencial para identificar riscos, aproveitar os benefícios previstos na legislação e conduzir essa transição com segurança.